A cultura amazônica, especialmente a cultura do canal do Rio Madeira, perdeu na tarde de sábado, um dos grandes nomes que a região já pariu, com o falecimento do escritor Raimundo Neves de Araújo, humaitaense da gema, poeta cujas composições sempre foram um hino à Amazônia, amante da natureza e de tudo que tivesse a regionalidade.
Com uma dezena de livros publicados, todos sobre lendas, personagens e fatos amazônicos, mas com ligação ao lago Uirapiara, onde nasceu, e a Humaitá, onde viveu e foi sepultado, ele escreveu seu nome dentre os grandes nomes de sua terra, dentre eles o artista plástico Moacyr Andrade, os governadores Plínio Coelho e Álvaro Botelho Maia – interventor do Amazonas, senador várias vezes pelo Estado, e os escritores Almino Afonso – ex-ministro do Trabalho e ex-vice-governador de São Paulo, Antonio Candido e Joaquim Cercino, os três últimos também membros da ACLER.

Raimundo Neves de Araújo ingressou na ACLER em 2008, na mesma cerimônia em que também ingressei, ele ocupando a cadeira 32, cujo patrono, coincidência ou não, é justamente o Comendador Monteiro – José Francisco Monteiro, que no final do Século XIX criou a cidade de Humaitá e a seguir o primeiro jornal impresso na região do Alto Madeira, o “Humaythaense”.

Logo no dia de sua posse o novo imortal deu mostras de seu nativismo, fazendo uma oração sobre árvores e bichos da região. E nas seguintes sessões da Academia sempre apresentava partes de seu trabalho, com a temática regional, evocando as figuras, as lendas, os costumes e as coisas da região.

Indicado pelo presidente Francisco – Chagoso – das Chagas, com aval do acadêmico José Marini, com os quais fui ao sepultamento, tive a honra de falar, em nome da ACLER, sobre a figura de Raimundo Neves de Almeida.

Lembrei que, como muitos outros, ele se colocou literariamente e como cidadão, muito acima da média. Mais ainda porque, Raimundo, em sua simplicidade com a qual pretendia ocultar o imenso conhecimento amazônico, era uma cultura muito além do que se espera de uma pessoa nascida, criada e, a vida toda, voltada a fazer o que o grande escritor russo León Tolstói propunha, “Antes de pintar o mundo, pinte primeiro a sua aldeia”.
E foi por “pintar sua aldeia”, como guardião da cultura nossa que viveu, deixando, acima de tudo, o grande exemplo de amor pela terra onde nasceu e que, como ele disse, em uma poesia lida por um dos seus filhos durante o velório, queria ser sepultado, e teve o desejo atendido.

Ao amigo que se foi e que, em momentos importantes quando presidi a ACLER foi um forte esteio que encontrei, o pedido, ao Pai, que ele esteja em um bom lugar – quem sabe? – próximo a Nossa Senhora da Conceição, do qual era fiel devoto.

Considere-se dito!

LÚCIO OPINA
Lúcio Albuquerque, repórter e membro da Academia de Letras de Rondônia