Em 2016, me contaram que o Multishow iria investir em um novo talk show. Algo diferente, inédito, com alguém que eu nem imaginava no comando: Mr Catra.

Por preconceito e pura ignorância levei um susto. Por que dar um programa de entrevistas para o “papai” do funk (afinal, 32 filhos não é para qualquer um, certo) ?

A resposta veio logo na primeira gravação. Catra era surpreendente. Em todos os sentidos.

Divertido, inteligente, desbocado, puro de coração.

Formado em Direito, o cara que bombou no batidão com o hit ‘Adultério’ era muito mais do que um mulherengo com voz de trovão.

Wagner Domingues Costa, seu nome de verdade, era politizado, entendia de história, tinha um eclético e vasto conhecimento musical. Sua gargalhada alta fazia tremer o chão.

Arrebatou Caetano Veloso logo no primeiro programa. Sim. Caetano foi um dos seus entrevistados no “Bagulho Louco”, sua atração no canal pago. Divagaram, poetizaram, cantaram. Rolou até uma ‘nova’ versão do funk ‘Um Tapinha não Dói’.

Acho que nem todo mundo entendeu o que ocorreu ali. No entanto, Catra mostrou em poucos episódios um lado que quase ninguém conhecia. Recebeu Emicida, Arlindo Cruz, Xande de Pilares, Raimundos, Preya Gil… Sonhava entrevistar Ivete, Zezé Di Camargo, Alcione…

Animado com essa vida de ‘apresentador’, me contou que perdeu peso, contratou uma personal trainer, uma coach, uma fonoaudióloga… Me mostrou uma nova coleção de gravatas que havia comprado. Sim. Queria estar ‘na estica’ para receber seus ‘convidados’.

Me chamou de ‘miss Leite Ninho’, por ter cara de criança bem nutrida, que tomou Leite Ninho até a adolescência… kkkk Perguntou seu eu gostava de funk … Fui sincera. “Não muito!”, respondi. Ele rebateu “Nem eu!” Caímos na risada.

Depois, mais sério, fez questão de me explicar um pouco da história do funk nas favelas do Rio, os problemas e a importância cultural do ritmo. Me deu uma aula de sociologia do pancadão !

Foi uma das entrevistas em que mais dei risada na minha vida. Gostei dele já nos primeiros cinco minutos de conversa. Torci para Wagner dar certo na TV. Mas não teve jeito. A carreira televisiva do funkeiro teve um fim precoce.

Seguindo uma dieta ortomolecular, perdeu mais 10 quilos para entrar na TV. Estreou em grande estilo, mas seu programa não decolou.

Não houve segunda temporada.

Apesar do “ineditismo” do programa, e do investimento do cantor na nova carreira, o formato não conquistou a audiência, o público não gostou, não entendeu a proposta, criticou a iniciativa.

Mas Catra não era de se abater. Disse que ‘curtiu’ demais a experiência.

Assim ele levava a vida. Não se preocupava com críticas. Casado com três mulheres, dizia que não era um ‘safado infiel’, pois todas as ‘esposas’ sabiam umas das outras, e aceitavam viver assim.

Flamenguista, Catra gostava de falar sobre futebol, política e de ajudar quem dava os primeiros passos no funk. Dava conselhos, apresentava pessoas do meio, abria as portas.

Diz a lenda que às vezes carregava uma ‘colinha’ com os nomes de sua penca de filhos para poder buscá-los na escola sem confundir.

Catra morreu neste domingo (9), em São Paulo, aos 49 anos. Deixou três esposas, 32 filhos, quatro netos e um milhão de amigos.

Fonte: R7