Porto Velho, a suja, imunda, esburacada, longe, quente, esquecida, mal administrada e mal iluminada capital de Roraima, tem energia elétrica, por incrível que pareça. Tem também três grandes hidrelétricas que foram construídas em detrimento do sofrido meio ambiente local. Jirau, Santo Antônio e Samuel produzem energia boa e barata para praticamente mandar só para fora do Estado. Só que a energia que se consome aqui é de péssima qualidade. Os apagões ainda são uma constante. Para se ter uma ideia, a ponte e os viadutos ainda estão escuros. A antiga Ceron, Centrais Elétricas de Rondônia ou Eletrobras Distribuição Rondônia mal foi privatizada e já deu o ar da graça para os trouxas dos rondonienses. Um aumento acima de 25 por cento foi o presente de Natal que a nova empresa, de nome Energisa, deu para seus consumidores.

Nada neste país teve um aumento tão absurdo quanto este. Para uma inflação anual que está beirando os seis por cento, este percentual é uma piada de muito mau gosto. “E ainda foi pouco”, é o que se comenta na empresa. A Energisa afirma de mãos postas que ficará com menos de um por cento deste total. Por isso, outros aumentos virão, com certeza. Isto é apenas o começo. Fala-se em nova majoração de preços já para julho próximo. Talvez o mesmo percentual ou até mais. O que os rondonienses fizeram de tão ruim para serem castigados desta forma? A construção das hidrelétricas no rio Madeira nada trouxe de benefícios para nós. O processo de privatização dos bens públicos encampado pelos partidos PSDB e PSL do presidente Bolsonaro entregará à iniciativa privada todos os bens públicos. Os políticos sabem: nada vão fazer por nós.

Tudo será privatizado, infelizmente. Eles pregam o Estado mínimo e para isso não estão preocupados com demissões em massa nessas empresas e muito menos com os pobres. “Não podem pagar pela energia que consomem, que comprem lamparinas e porongas”, deve ser o pensamento dessa gente. Porém, muitos rondonienses merecem mais esta desgraça. Muitos tripudiavam dos coitados dos funcionários da Ceron quando estes denunciavam em greves o que estaria por vir depois da privatização. Ninguém moveu “uma única palha” para evitar o desastre certo. A classe política também se fez de cega e surda diante da catástrofe que se anunciava. Mas acredito que o grupo Energisa ama Rondônia e sua gente. Desconfio até que os donos desta empresa mineira são “rondonienses de coração” e por isso vão manter todas as compensações sociais.

A grande ironia de tudo isso é que Rondônia hoje produz grande parte da energia para abastecer o resto do país enquanto por aqui vamos pagar uma das mais altas taxas pelo produto. Qual foi o governo que deu este presente de Natal para a Energisa? Foi o Michel Temer? Já ouvi muitos dizerem que foi a Dilma Rousseff e o PT os maiores responsáveis por este verdadeiro assalto, quase três anos depois, aos 641 mil consumidores rondonienses. De um modo geral, o povo daqui tem culpa, pois sempre trabalhou para entregar tudo a quem é de fora. “Tem que privatizar esta empresa”, bradava-se de forma arrogante. E o resultado está aí para todos verem e pagarem. E outras privatizações acontecerão. Bolsonaro recebeu um “cheque em branco” dos otários dos brasileiros para continuar com a sua saga privacionista. Mas o presidente da Energisa disse que vai tornar a empresa rentável, saudável e equilibrada. A nossa custa.

*É Professor em Porto Velho
http://blogdotionaza.blogspot.com