‘Mãe’ ESPERANÇA RITA – por Hugo Evangelista da Silva

O inventário criterioso que se faça acerca das mulheres que, por suas tantas qualidades, foram decisivas para a formação e consolidação do espaço que hoje acomoda o bairro de SANTA BÁRBARA, contemplará por absoluto imperativo de justiça, o nome de uma de nossas moradoras mais ilustres: d. ESPERANÇA RITA DA SILVA ou, simplesmente, “mãe Esperança”. Negra, analfabeta, pobre e “macumbeira”, conquanto praticante de um “credo” que é visto, ainda hoje, com os olhos da intolerância por parcela significativa de nossa gente, Mãe Esperança, tinha tudo para ser ignorada ou até segregada em meio aos poucos moradores de nossa cidade. A despeito disso, há os que afirmem que nos quarenta anos seguintes à criação do município de Porto Velho – 1914 – três pessoas foram por demais respeitadas em nossa cidade: Aluízio Ferreira, Padre João Nicoletti e “mãe” Esperança Rita.

Asseguram – os que viveram aqueles tempos – que incomodada com o adensamento populacional e o perfil excessivamente boêmio dos moradores e frequentadores do bairro Mocambo, a comprometer a execução dos “trabalhos” de suas ENTIDADES – sobretudo os festejos em louvor aos santos padroeiros – “Mãe Esperança” decidiu-se por mudar o seu TERREIRO para outro espaço, localizando-o na parte mais elevada da cidade, o qual reconhecido, tempos mais tarde, como bairro de SANTA BÁRBARA. Recepciono aqui, por oportunas, palavras de um de nossos moradores que se referindo à “passagem” entre nós dessa mulher tão singular, cunhou a afirmativa que traduz uma verdade irrefutável: “Foi pela mão dela que tudo isso começou!”

Os documentos compulsados com o fim de se obter as informações que permitiriam a elaboração de um perfil conclusivo a respeito de d. Esperança Rita revelaram-se de todo insuficientes, conquanto os registros encontrados contenham significativas divergências entre si, a começar por seus dados pessoais, o que também ocorreu à ocasião das entrevistas feitas com pessoas que a conheceram. Consta em referência à sua origem – a maioria dos textos – ser nossa ilustre moradora natural de Codó/MA, existindo outros, porém, que afirmem ser ela nascida em Belém/PA; havendo, ainda, os que assegurem ter ela nascido em Salvador/BA. As datas de seu nascimento e óbito são, também, controversas, o que nos impede de informar, com precisão, referidas datas, pelo que nos contentamos com a informação contida na dissertação da Dra. Marta Valéria, que assegura ser d. Esperança Rita “nascida na cidade de Codó, no Maranhão, possivelmente no dia 13 de maio de 1888”.

Os registros que encontrei dando conta de sua chegada a Porto Velho – alegadamente feitos a partir de informações colhidas junto a pessoas de seu convívio – são, igualmente, controversos, sendo os mais corriqueiros aqueles que dão conta de que, procedendo da cidade de Salvador/BA, d. Esperança Rita teria aqui aportado por volta do ano de 1911, atendendo a um convite de seu primo e também “pai-de-santo”, Sr. IRENEU DOS SANTOS, que estava a ocupar-se em serviços da EFMM. O convite lhe fora feito com vistas à instalação de um TERREIRO, o que terminou por acontecer no ano de 1914 – data igualmente controversa – considerada a inexistência de “centros espíritas” para a prática de sua “fé” por estas paragens. Do encontrado em referência às primeiras horas de d. Esperança Rita em nossa cidade, pouco vai além da singela informação de que seu marido, Sr. Raimundo Silva, ocupou-se – logo à sua chegada – nos serviços precisados na EFMM.

A prática reiterada de ações beneméritas, princípio maior a balizar os trabalhos da Irmandade Santa Bárbara e da Sociedade Beneficente de Santa Bárbara – conduzidas por “mãe” Esperança Rita – fizeram-se, entretanto, fartamente mencionadas à ocasião das entrevistas feitas com antigos moradores do bairro. Nos testemunhos colhidos, foram muitas as referências às bondosas ações patrocinadas pelas Instituições agregadas ao Batuque de Santa Bárbara e por seus dirigentes, as quais perpassam a simples acolhida das pessoas humildes aqui chegadas – premidas em suas necessidades mais essenciais – passando pela cura de seus males e a provisão dos alimentos necessários às suas subsistências naquelas primeiras horas, ocasião em que eram acomodados, primeiramente, em cômodos disponíveis no “complexo arquitetônico” da IRMANDADE, até serem transferidas, posteriormente, para acomodações próprias, edificadas nas cercanias do bairro, em terrenos obtidos, muitas vezes, com a interveniência de nossa bondosa “mãe-de-santo”.

A determinação de d. ESPERANÇA RITA em compor ao lado das pessoas mais necessitadas – a depreender-se das informações obtidas – foi, certamente, o viés norteador de suas bondosas ações ao curso de uma vida inteira, o que ela demonstra já às primeiras horas de sua chegada a nossa Cidade, no distante ano de 1911. Conta-se que – aqui instalada – a caridosa mãe-de-santo, viu-se incomodada com a situação de penúria vivida pelas mulheres remanescentes – dentre as 44 ditas prostitutas – que, colocadas à força nos porões insalubres do navio Satélite, foram para cá trazidas, em regime de deportação, na companhia dos marinheiros e alguns simpatizantes que tomaram parte na Revolta da Chibata, no ano de 1910. “Mãe” Esperança foi quem primeiro teria lhes estendido a mão: dando-lhes o abrigo de que careciam e restituindo-lhes, em parte, a dignidade que lhes havia sido covardemente confiscadas.

Daquelas desafortunadas mulheres – diz-se – uma viveria o bastante para tornar-se popular entre nossos moradores: a TUCANDEIRA, cujo prenome ela sempre omitiu, preferindo ser conhecida por seu codinome. A popularidade alcançada por essa mulher decorreu: primeiro, de sua singularidade física, porquanto negra, longilínea e de quadris bem avantajados, a diferenciar-lhe das demais mulheres locais e a justificar o apelido; também, por sua longevidade, a permitir-lhe uma duradoura convivência entre nós, o que se prolongou até os anos iniciais da década de ’60, do século passado; ainda, por sua identificação com os cultos afros, muito praticados em sua terra natal, o que a fez juntar-se ao RECREIO DE YEMANJÁ – tornando-se “filha” de “mãe” Esperança – onde praticaria seu credo até seus derradeiros dias; e,por fim, o seu apego à vida boemia, que aprendeu a apreciar – nos cabarés da Lapa – ainda aos tempos em que habitava sua terra natal, o Rio de Janeiro, os quais sempre lembrados nos seus momentos de lazer pelos “bares” do bairro do Mocambo.

As ações beneméritas e os trabalhos “mediúnicos” praticados por d. ESPERANÇA intensificaram-se com a fundação do RECREIO DE YEMANJÁ e a criação da “Irmandade de Santa Barbara” –1914 – e, depois, com a edificação da CAPELA de SANTA BÁRBARA – 1916 – instalados ainda no bairro do Mocambo, onde permaneceriam: o BATUQUE, até o ano de 1944, quando levado para a Avenida Joaquim Nabuco; e a IRMANDADE, até o ano de 1935, quando levada para a Rua Paulo Leal, onde, depois, construiu-se a nova CAPELA da Santa – 1946 – para serem fechadas por determinação do novo bispo – 1947 – e incontinenti reabertas – ainda em 1947 – por decisão de “mãe” Esperança – a IRMANDADE, agora “Sociedade Beneficente de Santa Bárbara” – no mesmo espaço ocupado pelo BATUQUE, na Avenida Joaquim Nabuco, onde funcionariam até o ano de 1972.

O trabalho praticado por d. ESPERANÇA RITA e “Seu” IRINEU DOS SANTOS mereceu, à época, o reconhecimento público de autoridades locais que, em referências elogiosas, deferiam às ações beneméritas da IRMANDADE e aos trabalhos mediúnicos realizados pelo TERREIRO de Santa Bárbara, os mais expressivos elogios. Dentre os homens públicos a avalizar tais “trabalhos” era destaque a pessoa do militar Aluízio Pinheiro Ferreira, então, a mais popular das autoridades locais à conta dos cargos públicos exercidos, incluso o de Governador do Território Federal (1943-1946). Contaram-me antigos moradores, entretanto, que o apreço da autoridade por nossa veneranda “mãe-de-santo” decorria, sobretudo, de sua simpatia aos “trabalhos” praticados no TERREIRO de YANSÃ, aos quais recorria – com regularidade – enquanto buscasse ajuda ao alcance de seus objetivos políticos. Diz-se, ainda, ser ele quem mais fazia os aportes – material e financeiro – necessários à realização dos festejos que tomavam lugar no TERREIRO da Santa.

Das outras pessoas locais a fazer referências elogiosas aos trabalhos da IRMANDADE e do TERREIRO de Santa Bárbara – conduzidas por d. ESPERANÇA RITA – conferindo-lhes o seu merecido valor e a ressaltar a sua importância social, destacam-se, ainda, os médicos: Dr. Ari Tupinambá Pena Pinheiro, que trabalhou para a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e para o Governo do Território, legando-nos primorosa pesquisa sobre as práticas ritualísticas dos TERREIROS aqui existentes; e, o Dr. Renato Clímaco Borralho de Medeiros, que a despeito de sua atividade médica, ocupou os cargos de Prefeito da Capital e Deputado Federal, além de destacados comerciantes locais. Encontrei escritos – cuidando de tempos mais recentes – que incluem, nesse rol, o nome do Governador, Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, à ocasião em que já se tinha operado a mudança do BATUQUE, do bairro Santa Bárbara para outros locais.

Anote-se, por fim, que o reconhecimento hipotecado a d. ESPERANÇA RITA e a “Seu” IRINEU DOS SANTOS à conta do trabalho realizado por suas ENTIDADES passa, ainda, pelos religiosos – padres e freiras – aqui residentes que, que em reiteradas ocasiões fizerem declarações elogiosas dando destaque aos “trabalhos religiosos” praticados no âmbito da IRMANDADE e da CAPELA de Santa Bárbara. Ressalte-se que, embora evidentes as restrições do clero ao culto dos orixás praticado pela “mãe-de-santo” e seu primo, aqueles religiosos sempre se dispuseram às celebrações que tomavam lugar na Capela da Santa – missas, batizados, casamentos, etc… – que eram realizadas em determinadas épocas do ano, além de tomarem parte nos festejos realizados em homenagem a nossa santa padroeira: Santa Bárbara.

Avaliza a informação acima prestada a noticia publicada na edição de 07.07.1935 – do Jornal “O Alto Madeira” – que dá conta do lançamento da pedra fundamental da nova Capela de Santa Bárbara, a ser construída no terreno situado na Rua Riachuelo (hoje Rua Paulo Leal), informando-se, ainda, que a cerimônia deu-se com a presença do Bispo da Diocese do Amazonas, Monsenhor Pedro Massa, e que à ocasião do evento fora proferido um discurso a cargo do Padre da Paróquia de Porto Velho: Antônio PEIXOTO. Diga-se mais: a inauguração da Capela da Santa – acontecida em 04.07.1946 – fez-se, igualmente, com a presença do Bispo, Monsenhor Pedro Massa, que se incumbiu da celebração de uma missa solene, acontecida na presença de inúmeros fiéis que tomaram, por completo, as instalações do prédio edificado no antigo bairro Favela, hoje zona central da cidade.

D. Esperança Rita, por tudo que fez, merece o apreço e o carinho que dedicam à sua memória as gentes de nosso bairro!

Hugo Evangelista da Silva

Advogado, escritor e professor universitário é autor dos livros “Capitão Alípio – Um Pouco do Verdadeiro e Outro Tanto do Folclórico”, trabalho biográfico sobre o oficial da Guarda Territorial que durante muito tempo foi responsável pela segurança das comunidades da região de Guajará-Mirim e “Santa Bárbara – Um Bairro de Porto Velho”, um relato memorialista sobre essa porção da capital rondoniense. O escritor integra o quadro de acadêmicos da Academia de Letras de Guajará-Mirim – AGL e ocupa a cadeira número 10, da Academia de Letras de Rondônia – ACLER, que tem por patrono o professor e desembargador Artur Virgílio do Carmo Ribeiro, antes ocupada pelo jornalista, historiador e professor Esron Penha de Menezes. O memorialista escreve sobre aquilo que viu ou que lhe fora contado sobre o nosso estado, sobre a nossa cidade e o sobre bairro em que nasceu e reside: o Santa Bárbara. É, também, colaborador de ”O Alto Madeira”, o mais antigo jornal da cidade. e-mail: hugoevan@yahoo.com.br