Estácio Trajano Borges*

INTRODUÇÃO

De início, é conveniente conceituar os termos milagre e magia e, somente após, procurar mostrar as suas distinções e semelhanças, segundo a característica de isenção que a pesquisa científica deve possuir. Assim sendo, diz-se que milagre é um ato ou um fato cuja compreensão escapa à razão humana, mas cuja autoria geralmente é atribuída a Deus ou a algum santo, enquanto a magia consiste na produção de efeitos que contrariam as leis naturais, mediante alguns procedimentos ritualísticos geralmente ininteligíveis. Por isso, dependendo da perspectiva ou do ponto de vista, e da simpatia ou antipatia das pessoas que presenciam o milagre ou a magia, o mesmo fato extraordinário pode ser caracterizado como um ou como a outra.

Contudo, esses conceitos simples não conseguem esconder as discrepâncias e similaridades existentes entre estas duas formas de ação fantástica, diante da subjetividade que identifica as pessoas que delas tomam conhecimento ou sentem os seus efeitos. Nesse sentido, tomemos o posicionamento do sociólogo Durkhein acerca desses fenômenos tão distantes e tão próximos, tão essenciais e tão dispensáveis para a vida do homem:

Será necessário, pois, dizer que a magia não pode ser distinguida da religião com rigor; que a magia é plena de religião como a religião, de magia, e que, por conseguinte, impossível separá-las e definir uma sem a outra. Mas o que torna essa tese dificilmente sustentável é a aversão profunda da religião pela magia e, consequentemente, a hostilidade da segunda para com a primeira. A magia pressupõe uma espécie de prazer profissional em profanar as coisas santas; nos seus ritos, ela assume a posição oposta à das cerimônias religiosas. A religião, por sua vez, embora não tenha condenado e proibido sempre os ritos mágicos, olha-os em geral de modo desfavorável (Durkhein, Émile. As Formas Elementares de Vida Religiosa, Paulinas, São Paulo, 1989, p. 75).

Portanto, é dentro dessa seara de antagonismos que procuraremos analisar os milagres e as magias e, ao final, apresentar alguma conclusão pelo menos coerente, que não agrida a lógica e o bom senso das pessoas leitoras.

MILAGRES NO ANTIGO TESTAMENTO

Partindo para enfocar os milagres e/ou magias constantes no Livro Sagrado comum ao Judaísmo e ao Cristianismo, diz-se que milhares de pessoas sabem que a Bíblia é rica em fatos e acontecimentos fantásticos, alguns de cunho histórico inarredável e outros nem tanto. Para apreciar alguns eventos bíblicos relacionados com milagres e/ou magias, é conveniente principiar pelas ações praticadas por alguns personagens mencionados no Antigo Testamento, especialmente aqueles rotulados de profetas, sendo que em primeiro lugar temos a figura de Elias, que teria nascido por volta do ano 870 a.C., e é citado nos livros canônicos 1Reis, Eclesisastes e Macabeus. Com a idade aproximada de trinta e três anos, e para fugir da ira da rainha Jezabel, que estava torturando e matando todos os israelitas que se recusavam a adorar ao ídolo/deus Baal, Elias profetizou o surgimento de uma grande seca que duraria três anos, com a ausência total de chuvas e até orvalho. Denunciando os erros constantes nos cultos pagãos daquela época, Elias atraiu contra si a ira do poder político dominante e, depois de ser perseguido sem trégua, o Deus de Israel recomendou-lhe que fugisse para o oriente, junto à torrente de Querite, na fronteira do Rio Jordão, local onde foi alimentado de pão e carne, por corvos que o visitavam duas vezes por dia.

Após a seca atingir proporções gigantescas e a citada fonte secar, Elias recebeu nova mensagem do Senhor Deus, ordenando que fosse a Sarepta ou Akbar, localizada no sul do atual Líbano. Tal como estabelecera Deus, naquele vilarejo Elias encontrou uma pobre viúva que vivia com seu filho único, rapaz de tenra idade, e a ela pediu água e comida, sendo que recebeu como resposta a afirmativa de que naquela casa somente havia um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija, e logo que preparasse tais alimentos e os comessem, mãe e filho ficariam esperando a morte por inanição completa. Elias disse para a viúva nada temer, pois o Deus de Israel garantia que aquela farinha e aquele azeite não se acabariam, até o término das dificuldades trazidas pela grande seca, algo que efetivamente ocorreu ao longo daquele período de escassez já mencionado.

Porém, o filho da viúva adoeceu gravemente e morreu de maneira misteriosa, tendo a mãe depositado a culpa pela desgraça na pessoa de Elias, que resolveu pegar o garoto em seus braços, levou-o ao quarto superior em que ficava hospedado e o estendeu em sua cama. Fez preces e invocou ao Senhor Deus, estendeu-se três vezes sobre o corpo do menino e rogou que a sua alma retornasse ao cadáver que ali estava, e foi prontamente atendido, naquilo que ficou registrado como o primeiro caso bíblico de ressurreição humana.

Em seus contatos com o Altíssimo, e estando próximo o fim da grande seca, Elias recebeu a ordem divina de retornar a Israel e apresentar-se ao rei Acab, cujo reinado ocorreu entre 874 e 854 a.C., que ainda continuava cultuando o seu ídolo Baal. Num desafio sobre quem tinha mais poder, entre quatrocentos e cinquenta sacerdotes de Baal e quatrocentos sacerdotes do Deus de Israel, Elias ordenou a preparação de dois novilhos para serem ofertados às respectivas divindades, no Monte Carmelo, local em que tais sacrifícios deveriam ser consumidos pelo fogo, sem a participação de qualquer pessoa.

No decorrer da manhã designada, os sacerdotes de Baal nada conseguiram com suas rezas e encantamentos, mas a Bíblia registra que Elias invocou o nome de Deus e foi devidamente atendido, com a queda de fogo do céu, suficiente para queimar todo o holocausto, a lenha e as doze pedras utilizadas no ritual da preparação, sendo que após aquele evento o próprio Elias, esquecendo do mandamento que ordena não matar, autorizou e ajudou no morticínio de todos os falsos profetas de Baal. Depois daquele prodígio, Elias orou, pediu chuvas e foi prontamente atendido por Deus, com isto terminando a longa estiagem há muito tempo profetizada.

A seguir, consta que Elias recebeu novas instruções de Deus, procurou Elizeu, filho de Safate, que estava arando a terra com doze juntas de bois, lançou o seu manto sobre este futuro discípulo e o convidou a segui-lo, sendo atendido imediatamente. Depois de vários anos e muitas peregrinações, estando Elias e Elizeu acompanhados de aproximadamente cinquenta discípulos, chegaram às margens do Rio Jordão, ocasião em que aquele profeta pegou o seu manto, enrolou-o e feriu as águas respectivas. Como resultado, surgiu fenômeno idêntico àquele da travessia do Mar Vermelho, realizado por Moisés, para a fuga dos israelitas que estavam cativos sob o reinado de Ramsés II (Êxodo 14, 21-22), tornando igualmente viável a travessia de Elias, Elizeu e comitiva. Após este milagre, Elias transferiu os seus poderes para Elizeu, através da entrega do citado manto sagrado, e foi arrebatado ou abduzido para o céu, naquilo que a Bíblia denomina carro de fogo, com cavalos de fogo (2Reis 1, 9-11).

Por sua vez, o discípulo e sucessor Elizeu começou a operar milagres logo após o arrebatamento noticiado anteriormente, sendo que o primeiro foi tornar saudáveis as águas de Jericó, com a ajuda de um simples prato novo e um pouco de sal (2Reis 2, 20-22). Mais adiante, ele realizou o milagre da multiplicação do azeite da vizinha de um dos seus discípulos, enchendo todas as vasilhas da casa e daquelas emprestadas pelos vizinhos, numa quantidade que foi suficiente para vender, pagar as dívidas deixadas pelo esposo falecido e livrar os filhos da escravidão ameaçada pelos credores (2Reis 4, 3-7).

Outros milagres atribuídos a Elizeu são a ressurreição de uma criança (2Reis 4, 32-35), a cura do leproso comandante Naamã, apenas com a recomendação de que este tomasse sete banhos no Rio Jordão (2Reis 5, 14), assim como a praga ou castigo imposto ao seu discípulo Geazi, que fora pedir recompensas a esse comandante curado, sem a autorização de Elizeu, numa espécie de transferência da lepra supracitada (2Reis 5, 25-27), além da flutuação de um machado de ferro que caíra no Rio Jordão (2Reis 6, 5-7).

Após a morte de Elizeu, por volta do ano 790 a.C., aconteceu um cortejo fúnebre de um homem não conhecido, sendo que, naquela ocasião, diante da invasão dos moabitas, o cadáver transportado foi atirado à cova do citado profeta e, no instante em que tocou os ossos deste, ressuscitou e se levantou sobre os próprios pés (2Reis 1, 21), numa demonstração clara de que os poderes dos chamados homens de Deus se manifestavam até mesmo após as suas mortes físicas.

Na verdade, naquela sociedade pré-cristã, a ingerência da religião na vida social era tão marcante que até mesmo em termos de saúde a Bíblia menciona que as enfermidades tem origem na vida pecaminosa das pessoas, ou seja, toda doença é consequência do pecado e, como tal, somente pode ser curada em local sagrado, no caso, nas sinagogas ou no Templo de Jerusalém. Para ilustrar esta afirmativa, veja-se o conteúdo do Segundo Livro das Crônicas 16,12-13:

No trigésimo nono ano do seu reinado, caiu Asa doente dos pés; a sua doença era em extremo grave; contudo, na sua enfermidade, não recorreu ao Senhor, mas confiou nos médicos. Descansou Asa com seus pais; morreu no quadragésimo primeiro ano do seu reinado”.

Na verdade, tal procedimento seguia estritamente o que está contido na Torah, conforme se depreende do seguinte texto constante em Levítico 13, 1-2:

Disse o Senhor a Moisés: O homem que tiver na sua pele inchaço, ou pústula, ou mancha lustrosa, e isto nela se tornar como praga, será levado a Arão, o sacerdote, ou a um dos seus filhos, sacerdotes.

MILAGRES NO NOVO TESTAMENTO

Em relação ao chamado Novo Testamento, a maioria dos cristãos e seguidores de outras religiões conhece fatos e passagens marcantes da vida de Jesus, principalmente aquelas intervenções fantásticas comumente rotuladas de milagres. Por isso, poucos dispensaram uma análise mais apurada para o modo através do qual Ele optou pela difusão ou pregação das suas ideias.

Convém mencionar que a primeira aparição pública de Jesus, na fase adulta aqui enfocada, pode ser considerada aquela do batismo realizado pelo primo João, que os quatro evangelhos canônicos são convergentes na afirmação de ter ocorrido no rio Jordão, em local que os pesquisadores indicam ficar distante da região de Qunram não mais do que 9 quilômetros. Contudo, os textos canônicos afirmam que após ocorrer tal batismo, o Espírito Santo teria se manifestado na forma corpórea de uma pomba, ocasião em que foi ouvida uma voz vinda do céu Tu és o meu filho amado, em Ti me comprazo (Lucas 3, 22), mas alguns capítulos adiante o mesmo evangelista menciona que João chamou dois dos seus discípulos e os enviou até Jesus, para fazer a seguinte pergunta: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? (Lucas 7, 19).

Diante dessa contradição bíblica, cabem as seguintes indagações: João realmente viu a pomba noticiada? Teria ele escutado a afirmação de que Jesus era o filho amado de Deus? Por que esta dúvida atroz, partindo logo daquele que o próprio Jesus diria ser o maior dentre os nascidos de mulher? João era surdo ou não acreditava naquela afirmativa (teofania) alegadamente emanada de Deus? Tais dúvidas não se chocam com a afirmação eloquente contida no Evangelho de João, em que o Batista disse que viu e tem testificado que Jesus era o filho de Deus?

A seguir, a Bíblia Sagrada nos mostra que Jesus teria iniciado o procedimento itinerante de não se fixar num único lugar, residência, vila ou cidade, sendo que após tal batismo ocorreu a reclusão voluntária no deserto, local onde permaneceu durante 40 dias, provavelmente assistido pelos membros das comunidades essênias, que habitavam naquelas imediações, inclusive porque as cavernas de Qunram, onde foram achados os pergaminhos do Mar Morto, estão localizadas nas proximidades daquela região do Rio Jordão. Após a quarentena mencionada e, percebendo que a seita dos essênios apresentava muito radicalismo em seus conceitos e modo de vida, principalmente pela estrita observância da Lei de Moisés, que, dentre outras coisas, ordenava guardar o sábado sob quaisquer aspectos, resolveu Jesus distanciar-se dos ensinamentos e doutrina do essenismo, sendo certo que tal situação de quase ruptura fica mais nítida com a afirmação constante no Evangelho segundo Marcos 2, 27-28:

E acrescentou: o sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado, de sorte que o filho do homem é o senhor também do sábado.

Contudo, não se deve imaginar que tal ruptura com a Comunidade de Qunram tenha ocorrido de maneira irreversível e total, até porque no decorrer da chamada vida pública de Jesus outros eventos e manifestações d’Ele serviriam para demonstrar o contrário, especialmente no trecho do Sermão da Montanha, constante em Mateus 5,1-2, cujo destaque fica para o versículo 3 (Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus), uma vez que os essênios usavam a expressão “pobres de espírito” para a sua própria denominação, conforme descreve o jornalista Roberto Pompeu de Toledo:

Que pobres de espírito são esses? Eis a resposta de Charlesworth: Pobres de espíritoo, bem como pobres, ‘são termos técnicos, usados pelos essênios para se descreverem’. O autor cita um dos documentos de Qumram, o chamado Manuscrito da Guerra, para desfiar numerosos exemplos em que os essênios chamam-se a si próprios de pobres, ou pobres de espírito, identificados como ‘os perfeitos do caminho’, que acabariam por derrotar os iníquos (Toledo, Roberto P. O Jesus da História, Revista VEJA, Editora Abril S.A., São Paulo, 23-12-1999, p. 200).

Mais adiante, conforme registro constante em Lucas, 4:16, Jesus se dirigiu para a cidade de Nazaré, onde teve acesso ao púlpito da sinagoga lá existente, e pregou a afirmação de que o Espírito do Senhor estava sobre Ele, com a missão de evangelizar os pobres, dar liberdade aos cativos e oprimidos e restaurar a visão dos cegos. Porém, aquela comunidade zombou dele e até mesmo o expulsou dali, sendo que daquele evento restou-lhe a afirmação de que nenhum profeta é bem sucedido na própria terra.

Começava, portanto, a itinerância que seria uma das características mais marcantes do movimento que estava em gestação naquela oportunidade, naquilo que poderia ser considerada uma verdadeira transgressão religiosa e social, exatamente porque a mobilidade atentava contra os padrões que exigiam o exercício de uma profissão regular e os consequentes dízimos e impostos dela oriundos. Enfim, o próprip Jesus resumiu aquele seu procedimento quase subversivo, na seguinte frase: As raposas tem seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9, 58).

A adoção deste procedimento radical, feita de maneira deliberada por Jesus, certamente demonstrava e punha em prática a idéia da subversão dos valores atávicos então vigentes, pois se todos os atos importantes da vida das pessoas girava em torno do famoso Templo de Jerusalém, ou das sinagogas existentes nos vilarejos e cidades, Ele próprio ia até onde estavam as pessoas destinatárias da sua mensagem espiritual, e não esperava que estas o procurassem, praticando curas, magias ou milagres que eram privativos da atividade sacerdotal, segundo consta na Bíblia.

MILAGRES E MAGIAS CONVIVEM PACIFICAMENTE?

Convém abordar, agora, a questão atinente aos chamados milagres vinculados a Jesus. Antes, porém, é necessário transcrever o posicionamento do professor de estudos bíblicos da renomada DePaul University, em Chicago, EUA, o canadense John Dominic Crossan, que afirma o seguinte:

Sugiro agora que a magia está para a religião como o banditismo para a política. Enquanto o banditismo contesta a legitimidade do poder político, a magia contesta a do poder espiritual. Tanto no mundo antigo como no moderno, pode-se fazer uma distinção entre magia e religião através de definições prescritivas e políticas, mas não através de descrições neutras e objetivas. A religião é a magia oficial e aprovada; a magia é uma religião extra-oficial e censurada. Ou, em termos mais simples: Nós praticamos religião, eles praticam magia. […] Justamente por causa da posição da magia enquanto uma religião subversiva, extra-oficial, censurada e, muitas vezes, de classe baixa, empreguei deliberadamente a palavra magia, ao invés de algum eufemismo, em todas as seções deste livro. Elias e Elizeu, Honi e Hanina eram magos, assim como Jesus de Nazaré. É fascinante ver teólogos cristãos descreverem Jesus como um milagreiro, ao invés de um mago, e depois tentarem estabelecer uma diferença objetiva entre as duas categorias. O caráter tendencioso desses argumentos aponta para uma necessidade ideológica de proteger a religião e os seus milagres da magia e seus efeitos (Crossan, John D. O Jesus Histórico, Imago Editora Ltda., São Paulo, 1994, p. 342).

Os estudiosos procuram distinguir as artes médicas da magia e do milagre, afirmando que a medicina compreende a observação, o diagnóstico da enfermidade e a prescrição de algum remédio ou procedimento para a cura desse mal detectado. Já o milagre pressupõe a existência de uma força espiritual maior atuando sobre determinada pessoa ou coisa, com ou sem a interferência de um agente externo, enquanto a magia em nada diferencia deste, apenas no tocante ao convencimento subjetivo de quem a recebeu ou dos que tomaram conhecimento de tal evento incomum. Porém, não se deve esquecer que existem enganadores, charlatães e impostores atuando como milagreiros, como mágicos e como médicos, razão pela qual, em princípio, não se pode desprezar qualquer dessas manifestações, simplesmente porque alguma delas não nos causa simpatia, atração ou neutralidade.

Crossan continua analisando a questão das magias e/ou milagres atribuídos a Jesus, ao transcrever o posicionamento do escritor David Aune: A magia é definida como uma forma de desvio religioso em que se procura atingir os objetivos de um grupo ou indivíduo através de meios alternativos, fora daqueles sancionados pela instituição religiosa dominante (Crossan, J. D. obra citada, p. 346).

Mais adiante, aquele professor de Chicago conclui seu raciocínio acerca da subjetividade para diferenciar magia de milagre: Por outro lado, os ritos religiosos, como a missa da Igreja Católica Romana, garantem a transubstanciação e poderiam ser acusados de magia por observadores hostis (Crossan, J. D. obra citada, p. 346), tendo em vista que um cético ou ateu pode muito bem duvidar que na hóstia consagrada esteja o corpo de Jesus, capaz de todas as curas e banimento do pecado.

Procurando demonstrar esse grau de subjetividade como fator determinante para distinguir uma magia de um milagre, é conveniente mencionar que um contemporâneo de Jesus, denominado Simão, o mago, é mencionado nos Atos dos Apóstolos 8, 9-13, cujos feitos conseguiram impulsioná-lo até Roma, cerca de dez anos após a crucificação de Jesus. Atenção especial merece a afirmação feita por um dos chamados pais da igreja, Justino (100 – 165 d.C.), na obra “Apologia a Antonino”, acerca daquele personagem que até mesmo rivalizava com Jesus:

Após a ascensão de nosso Senhor ao céu, certos homens foram subornados por demônios como seus agentes e diziam serem deuses. Esses foram não somente tolerados, sem perseguição, como até considerados dignos de honra entre vós. Um deles foi Simão, certo samaritano da vila chamada Gitão. Este, no reinado de Cláudio César, ao realizar vários rituais mágicos pela operação de demônios, foi considerado deus em vossa cidade imperial de Roma e foi por vós honrado como um deus, com uma estátua entre as duas pontes no rio Tibre [numa ilha], tendo a subscrição em latim: Simoni Deo Sancti, ou seja, o Santo Deus (Cesareia, Eusébio de. História Eclesiástica, CPAD, Rio de Janeiro, 2000, p. 60).

Acrescente-se que este personagem contemporâneo de Jesus foi discípulo de João Batista e chegou a suceder ao seu mestre, após a morte deste, pelo rei Herodes, sendo que os registros informam a sua capacidade de curar enfermos, transformar pedras em pães, ressurreição de cadáveres, etc. Mas é claro que a igreja que estava nascendo não queria ter um concorrente e rival, que agia de maneira idêntica ao Rabi da Galileia que fora crucificado, e para tanto arranjou uma maneira de levá-lo para o rebanho dos convertidos, conforme se percebe no versículo 13 do texto canônico anteriormente citado, onde teria ocorrido o batismo de Simão, o mago, com a consequente neutralização das suas ações.

Igualmente digno de menção é o personagem que viveu no Século I, cujos feitos fantásticos também chegaram a rivalizar com aqueles atribuídos a Jesus, nascido na primeira década daquela era, na cidade de Tiana, atualmente localizada na Turquia, o qual costumava usar túnicas brancas, cabelos longos e andava descalço, ensinando a libertação do sofrimento para todos as pessoas, e não apenas para os seus discípulos. Os conhecimentos acerca de Apolônio de Tiana chegaram até a modernidade através do esforço da esposa de Septímio Severo e mãe do imperador romano Caracalla, Domina Julia, que entregou ao filósofo Flavius Filostrato o diário do discípulo Damis, algumas cartas e tratados escritos por e sobre aquele grande viajante, para que fosse possível a confecção da “Vida de Apolônio”, que ficou pronta por volta do ano 217 d.C.

Na obra de Filostrato é mencionado o evento milagroso ou mágico, devidamente comprovado por inúmeras testemunhas, onde Apolônio estava em Roma e encontrou numa rua um cortejo fúnebre, que levava uma jovem que morrera na véspera do seu casamento. Ele parou a procissão, tocou o corpo e sussurrou algumas palavras para o cadáver, que imediatamente ressuscitou, para o imenso júbilo do noivo e dos seus familiares.

Apolônio foi perseguido e preso pelo imperador Domiciano, no ano de 93 d.C. Por ocasião do julgamento respectivo, teria dito ao imperador que nem mesmo as lanças poderiam matá-lo, pois não era mortal e, soltando do próprio corpo a perna que estava acorrentada, retirou os grilhões que o prendiam e desapareceu misteriosamente do tribunal. Acrescente-se que esse poder de sumir ou evanescer, que Apolônio demonstrou possuir, também era comum a Jesus, que procedeu de modo idêntico quando a comunidade de Nazaré o rejeitou como Messias e tentou atirá-lo do cume do monte ali existente (Lucas 4, 29-30).

Consta em tal biografia que Apolônio de Tiana possuía o poder de ver ou perceber os acontecimentos que estavam ocorrendo em locais muito distantes, ou seja, tinha o dom da premonição, conforme nos informa Mead: Se as pessoas, de fato, não sabem mais nada sobre Apolônio, pelo menos ouviram como ele viu em Éfeso o assassinato de Domiciano em Roma, no momento de sua ocorrência (Mead, G. R. S. Apolônio de Tiana, Editora Teosófica, Brasília, 2000. p. 102).

Também está registrado que ele se encontrava discorrendo sobre filosofia para uma platéa significativa, naquela cidade turca, quando teve a visão do crime que estava ocorrendo em Roma, tendo naquela ocasião mencionado a frase “derrubem o tirano”, para a incredulidade dos seus assistentes. Como as pessoas imaginavam que o seu mestre perdera a razão, este disse a seguinte frase: Vós, de vossa parte, tendes razão para conter a alegria até que as notícias vos sejam trazidas da forma usual; quando a mim, vou agradecer aos deuses por aquilo que eu mesmo vi (Mead, G. R. S. obra citada, p. 103), sendo certo que algumas semanas mais tarde chegou a Éfeso a notícia do referido assassinato do imperador Domiciano.

As ações daquele homem foram tão fantásticas que o historiador romano Vopisco, escrevendo na penúltima década do Século III d.C. sobre o imperador Aureliano, que governou Roma entre 270 e 275 d.C., mencionou a condição quase divina de Apolônio de Tiana: Pois quem entre os homens foi mais santo, mais merecedor de reverência, mais venerável, mais semelhante a Deus do que ele? Foi ele quem deu vida aos mortos. foi ele quem fez e disse tantas coisas além do poder dos homens (Mead, G. R. S. obra citada, p. 39).

MAGIAS E MILAGRES (QUASE) EXPLICADOS

Criando um parêntese para o tema em questão, convém registrar que o escritor orientalista Paul Brunton, na obra O Egito Secreto, descreve fatos por ele presenciados que tanto podem ser rotulados de magias como de verdadeiros milagres. No primeiro caso, o autor estava na cidade do Cairo e visitou um mago, que preferiu manter-se no anonimato, sendo que para a visita seguinte pediu que ele comprasse uma galinha branca e nova, numa feira qualquer, e a levasse consigo. Lá chegando, Brunton presenciou a tentativa de fuga da galinha, mas o mago dava-lhe ordens para que retornasse ao local inicialmente ocupado. Após isto, o corpo da ave começou a tremer e a sua respiração ficou dificultada a cada palavra incompreensível que era falada pelo encantador, até finalmente morrer, sem qualquer toque físico feito por este. O próprio escritor narra que embrulhou o corpo da galinha numa exemplar do jornal Al Ahram, o mais prestigiado da capital do Egito, e o levou para o hotel em que estava hospedado para, finalmente, jogá-lo no rio Nilo (Brunton, Paul. O Egito Secreto, Editora Pensamento, São Paulo, 1997, pp. 80-81).

Mais adiante, o mago afirma ao autor que a magia dera bom resultado e que, daqui por diante, o gênio, ao destruir a vida dessa ave, deu sinal de que está disposto a lhe servir. Algumas vezes, quando pratico essa magia e a ave não morre, é porque o gênio se nega a prestar sua ajuda ao interessado”.

Na segunda obra, denominada A Índia Secreta, o autor descreve o caso devidamente registrado na cidade de Lahore, atual Paquistão, ocorrido em 1837, onde o faquir Haridas foi enterrado na presença do rei Rangie Singh, de Sir Claude Wade, do médico Honigberger e de várias outras testemunhas, além de inúmeros soldados sikhs que faziam a guarda da sepultura durante todas as horas do dia e da noite. Ao final de 48 dias devidamente enterrado, sem qualquer possibilidade de receber oxigênio e/ou alimento por qualquer parte da sepultura, tal faquir foi desenterrado vivo, aparentemente sem sinais de debilidade física (Brunton, Paul. A Índia Secreta, Editora Pensamento, São Paulo, 1998, p. 87).

Na sequência, relata o mencionado autor um dos vários encontros que teve com o mestre Vishudhananda, na cidade de Benares, na Índia, tendo este destacado que naquela oportunidade faria a ressurreição de um pequeno pardal, após este ser estrangulado e permanecer morto e enrijecido por mais de uma hora, na frente dos espectadores. Depois, o mestre dirigiu um raio de luz solar, através de uma lente, diretamente para o olho do passarinho morto e, após emitir uma espécie de cantoria estranha e rouca, a pequena ave voltou à vida, saltitando nos ladrilhos da casa e voando para o poleiro onde se encontrava inicialmente. Por fim, depois de transcorrida apenas meia hora, o passarinho caiu novamente morto aos pés do escritor, tendo este perguntado o porquê daquela irrisória sobrevida de apenas trinta minutos, ao que o mestre respondeu que aquilo era tudo que podia mostrar naquele momento (Brunton, Paul. A Índia Secreta, Editora Pensamento, São Paulo, 1998, p. 182).

Estas passagens alusivas ao Egito e à Índia, tais como descritas pelo citado jornalista e escritor, guardando as devidas proporções, encontram similaridade com aquelas relatadas na Bíblia, dependendo apenas da fé ou do grau de subjetividade inerente a cada fiel ou leitor.

Voltando ao contexto bíblico, dentre os muito milagres atribuídos a Jesus, tomemos alguns que estão relatados nos Evangelhos de Marcos e João, especialmente aquele alusivo à multiplicação dos pães e dos peixes. É do conhecimento geral que o mestre Jesus utilizou-se de apenas cinco pães e dois peixes e com eles conseguiu alimentar quase cinco mil pessoas que estavam ali nas imediações do Mar da Galileia, nas proximidades da atual cidade de Tiberíades, ouvindo as pregações dele. Nos textos canônicos citados consta que todas as pessoas ficaram saciadas e ainda sobraram doze cestos de alimentos.

Contudo, a Igreja Cristã não admite que na introdução ao texto budista denominado Jataka, datado aproximadamente do Século II a.C., existe o mesmo milagre atribuído à pessoa do Buda histórico, Sidharta Gautama, o qual, com apenas um pão existente na sua cuia de mendicante, foi capaz de saciar a fome dos mais de quinhentos discípulos e de todos os moradores de um mosteiro das imediações, tendo também sobrado o total de doze cestos das migalhas não consumidas pelos comensais. A única diferença entre ambos os milagres, do ponto de vista quantitativo, diz respeito aos peixes empregados por Jesus, mas tal fato pode decorrer do processo de interpolação ou acréscimo usado na feitura de tais evangelhos, quando os mesmos ainda não tinham sido canonizados.

Indo mais além, tomemos a passagem narrada pelo evangelista Marcos, segundo a qual os discípulos foram compelidos por Jesus para entrar num barco e navegar no referido mar fechado da Galileia, enquanto Ele próprio ficou em terra. No decorrer daquela noite, estando tais discípulos em dificuldade, no centro da tempestade já formada, viram Jesus se aproximar, andando sobre as ondas do mar. Temerosos, seus seguidores apenas o ouviram dizer: Sou eu. Não temais (João 6, 20). Contudo, depois da leitura de ambas as passagens bíblicas é possível que o fiel sinta que esta última passagem, relativa ao ato de andar sobre as águas, foi colocada ali de maneira forçada, portanto fora de qualquer contexto lógico, exatamente porque os discípulos poderiam muito bem permanecer no local onde estavam, próximos ao Mestre que se retirara para orar, até porque Ele não era um mago de feira que precisava operar um milagre seguido de outro, simplesmente para satisfazer o interesse e a curiosidade dos que o seguiam, visto que até mesmo seus discípulos ainda não compreendiam o milagre da multiplicação dos pães (Marcos 6, 52).

Convém atentar para o fato de que existe a descrição de um milagre idêntico a este, escrito pelo menos dois séculos antes de Cristo, no texto budista Mahavagga, onde o rio Ganges, após uma chuva torrencial, ficou com as suas águas violentas. Consta que o discípulo Kassapa saiu num bote para procurar o Buda histórico e o encontrou caminhando sobre as águas, tendo perguntado naquela ocasião: Estás aí, grande monge mendicante?, ocasião em que o Buda respondeu Sou eu, Kassapa, e logo a seguir subiu ao mencionado bote.

Enfim, a mesma resposta lacônica foi empregada pelos dois personagens. As similaridades são tantas, especialmente nesse citado milagre de andar sobre as águas, onde até mesmo as palavras são iguais, que podemos concluir que ocorreu uma apropriação do texto mais antigo (budista) pelo mais novo (cristão), circunstância que contribui para demonstrar que as ações prodigiosas não são privativas de determinadas pessoas ou denominações religiosas.

Mas voltemos às curas, milagres ou magias praticados por Jesus que, na opinião de Geza Vermes, professor de Estudos Judaicos na Universidade de Oxford, Inglaterra e membro da Academia Britânica, era uma autêntico judeu “hassid”, sendo certo que o hassidismo era considerada uma espécie de herança dos profetas do Antigo Testamento, com a característica das curas consideradas milagrosas tão presentes em ambos os Testamentos. Indo mais adiante, aquele festejado autor afirma que nada indica que alguma vez Jesus tenha declarado ser o Messias, muito menos o filho de Deus, visto que tais títulos lhe foram atribuídos posteriormente, ao longo das inúmeras compilações e interpolações feitas nos textos da Igreja então incipiente (Vermes, Geza. A Religião de Jesus, o Judeu; Editora Imago, Rio de Janeiro, 1995, p. 12).

Nesse contexto, não devemos esquecer que as igrejas cristãs deixaram de fora dos seus textos ditos “inspirados” algumas situações embaraçosas e não dignificantes, visando destacar e enfatizar apenas o conteúdo considerado bom e capaz de converter os rebanhos ao Cristianismo incipiente. Mas esse procedimento nem sempre ocorreu de maneira correta, legal e digna, pois geralmente acontecem confissões e incontinências verbais dos personagens que fazem a história das civilizações, que lançam seus escrúpulos na lata do lixo histórico para atingir objetivos de moral e ética duvidosas, tal como ocorreu num evento famoso no Brasil, onde o então Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, embaixador Rubens Ricúpero, na primeira semana de setembro de 1994, confessou para o jornalista Carlos Monforte, em conversa informal, um pouco antes de ser gravada entrevista para o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, em relação aos números e estatísticas da economia brasileira: “Eu não tenho escrúpulos, o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Infelizmente para os dois, a conversa em off foi registrada pelo microfone do estúdio e lançada pelo espaço, sendo captada através de antenas parabólicas por milhões de testemunhas involuntárias da inconfidência ministerial, situação que resultou na imediata exoneração daquele personagem que se autodenominou “inescrupuloso”.

Acerca desse tema, tem-se uma situação ocorrida nos primórdios do cristianismo, relacionada com a forma também muito “inescrupulosa” praticada por um dos chamados Pais da Igreja, que viveu entre o primeiro e o seguindo séculos dessa era cristã.

Dos chamados milagres realizados por Jesus, um possui a característica de ser mais extraordinário do que os demais, cuja versão mais conhecida se encontra no capítulo 11 do evangelho de João, e diz respeito à ressurreição do amigo Lázaro. Porém, em 1.958, o Dr. Morton Smith, que posteriormente assumiria a cátedra de História Antiga da Universidade de Columbia, Nova Iorque, EUA, encontrou na biblioteca da comunidade isolada de Mar Saba, pertencente à Igreja Ortodoxa Oriental, localizada a cerca de 18 km. de Jerusalém, fragmentos de um Evangelho Secreto, atribuído a Marcos, mais precisamente a cópia de uma carta do chefe da Igreja Cristã no Século II d.C., Clemente de Alexandria (150-215 d.C.), sendo que esta cópia estava datada do início da segunda metade do Século XVIII e fora escrita nas páginas finais de um livro de 1646 (que reunia as cartas de Inácio de Antioquia), visto que tal procedimento era comum, pela escassez de papel, quando os documentos respectivos começavam a deteriorar.

A mencionada carta é uma resposta a alguém chamado Theodoro, que aparentemente escrevera a Clemente de Alexandria, pedindo conselhos de como lidar com os membros da seita dos carpocratianos, representada pelo culto gnóstico onde as práticas incluíam ritos sexuais, muito provavelmente condenados pelos patriarcas da Igreja, inclusive Clemente. Na resposta, aquele bispo de Alexandria admitia que o chamado “Evangelho Secreto de Marcos” existia e era autêntico, muito embora ele próprio condenasse a interpretação errônea dada pelos seguidores de Carpócrates, razão pela qual o conteúdo do citado texto não poderia ser divulgado às pessoas comuns ou não iniciadas, numa genuína forma de censura que pretendia mostrar apenas o lado bom ou positivo dos Evangelhos.

Eis, portanto, um trecho muito polêmico da carta escrita por Clemente de Alexandria, escrito no final do Século II, ao personagem identificado apenas pelo nome de Theodoro:

Você fez bem em silenciar os indescritíveis ensinamentos dos carpocratianos. Pois estes são as “estrelas errantes” da profecia, que se desviam da estrada estreita dos mandamentos para um abismo sem fronteiras de pecados carnais. Pois, orgulhando-se de seu conhecimento, como eles dizem, “das profundas [coisas] de satã”, eles não sabem que estão se jogando no “baixo mundo da escuridão” da falsidade, e, vangloriando-se de serem livres, eles se tornam escravos de desejos servis. Tais [homens] devem ser combatidos de todas as maneiras e completamente. Pois mesmo que eles digam alguma verdade, quem ama a verdade não deve, mesmo assim, concordar com eles. Pois nem todas as verdadeiras [coisas] são a verdade, nem deveria aquela verdade que [meramente] parece verdadeira segundo opiniões humanas deve ser preferida à verdade absoluta, aquela da fé.

[Quanto a] Marcos, então, durante a estada de Pedro em Roma, ele escreveu [uma narrativa sobre] os feitos do Senhor, sem contudo declarar todos, nem ainda insinuar os secretos, mas selecionando aqueles que ele pensou mais úteis para aumentar a fé dos que estavam sendo instruídos. Mas quando Pedro morreu como mártir, Marcos veio a Alexandria, trazendo suas notas e aquelas de Pedro, das quais ele transferiu para o seu livro anterior as coisas adequadas ao que quer que leve a progressos na direção do conhecimento [gnose]. [Então] ele compôs para uso um evangelho mais espiritual que aqueles que estavam sendo aperfeiçoados. Entretanto, ele não divulgou as coisas que não deviam ser pronunciadas, nem escreveu os ensinamentos hierofânticos do Senhor, mas às histórias já escritas ele adicionou outras, e, além disso, trouxe alguns dizeres dos quais ele sabia que a interpretação guiaria os ouvintes até os mais recônditos santuários da verdade oculta pelos sete [véus]. Então, em suma, ele pré-arranjou assuntos, nem de má vontade nem de forma incauta, em minha opinião, e, ao morrer, ele deixou a sua composição na igreja de Alexandria, onde ela é ainda mais cautelosamente guardada, sendo lida somente por aqueles iniciados nos grandes mistérios.

Mas como os loucos demônios estão sempre planejando destruição para a raça humana, Carpócrates, instruído por eles e utilizando-se de artes malévolas, escravizou alguns presbíteros da igreja de Alexandria de tal modo que conseguiu uma cópia do evangelho secreto, que ele interpretou segundo a sua doutrina blasfema e carnal e, além disso, poluiu, misturando palavras límpidas e sagradas com vergonhosas mentiras. Àqueles [os carpocratianos], dessa forma, como eu disse antes, não se deve dar trégua jamais. Quando eles lançam as suas falsificações, não devemos conceder que o evangelho secreto é o de Marcos, mas devemos sempre negá-lo sob juramento. Pois “nem todas as verdadeiras [coisas] devem ser ditas a todos os homens”.

Para você, eu não hesitarei em responder [às perguntas] que perguntou, refinando todas as falsificações pelas verdadeiras palavras do evangelho. Por exemplo, depois de “E eles seguiram na estrada que ia para Jerusalém ” e o que se segue, até “Depois de três dias ele subirá “, [o evangelho secreto] traz o seguinte [material], palavra por palavra:

“E eles chegam a Betânia, e uma mulher, cujo irmão havia morrido, estava lá. E, vindo, ela se prostrou ante Jesus e lhe disse: Filho de Davi, tenha piedade de mim. Mas os discípulos a empurraram. E Jesus, ficando com raiva, foi com ela até o jardim onde estava a tumba e, imediatamente, um grande grito foi ouvido da tumba. Chegando perto, Jesus afastou a pedra da porta da tumba. E imediatamente, indo na direção de onde estava o jovem, ele estendeu sua mão e o levantou, segurando-o pela mão. Mas o jovem, olhando para ele, o amou e começou a implorar que pudesse segui-lo. E saindo da tumba eles foram para a casa do jovem, pois ele era rico. E depois de seis dias, Jesus lhe disse o que fazer e à noite o jovem foi ter com ele, usando uma roupa de linho sobre [seu corpo] nu. E ele permaneceu com ele aquela noite, pois Jesus ensinou-lhe o mistério do reino de Deus. E então, se levantando, ele retornou ao outro lado do Jordão (Baigent, Michel; Leigh, Richard & Lincoln, Henry. O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1993, pp. 264-265).

Na verdade, o “inescrupuloso” bispo Clemente de Alexandria conseguiu formar adeptos ao longo dos séculos, inclusive no Brasil, conforme se viu no fato relacionado com o ex-ministro Ricúpero, pois naquela carta ele próprio confessou ter Marcos composto “um evangelho mais espiritual que aqueles que estavam sendo aperfeiçoados”, ou seja, Clemente de Alexandria confessou ser engodo ou fantasia aquela afirmativa de que os livros da Bíblia são produto de total e instantânea inspiração divina, tendo em vista que o processo de aperfeiçoamento destacado anteriormente é próprio dos homens, e não de Deus.

Depois de analisar o conteúdo de tal missiva enviada a Theodoro, eis as conclusões ou resultados apresentados pelo professor John Dominic Crossan, acerca da capacidade da Igreja primitiva de censurar, suprimir, expurgar ou fazer interpolações nos textos que posteriormente seriam canonizados, para os quais seria atribuída a característica da infalibilidade divina, mas que a realidade demonstra ter outra natureza:

Primeiro: O Marcos canônico é uma versão censurada do Marcos Secreto, de modo que a ressurreição de um morto estava presente na primeira edição de Marcos, que Clemente chama de Marcos Secreto. Segundo: Essa unidade provavelmente era utilizada na cerimônia nudista de batismo praticada na sua comunidade, recebendo depois uma interpretação erótica por parte de alguns fiéis (Crossan, John Dominic. O Jesus histórico, Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda., 1994, p. 366).

Destarte, cabe ao leitor abraçar o texto que melhor convier às suas convicções filosóficas ou religiosas, optando entre o Evangelho Secreto de Marcos, que inicialmente fazia parte do Evangelho de Marcos, ou o Evangelho de João, sem esquecer que essa característica, aliás, foi suficiente para que muitos estudiosos chegassem à conclusão de que o conteúdo desse chamado evangelho canônico possui valor histórico praticamente nulo, dos quais destaca-se o seguinte:

A pesquisa teve que se restringir a Marcos, Mateus e Lucas e excluir João porque, apesar de algum detalhe histórico ocasional que possa oferecer, seu retrato de Jesus é tão envolvido em teologia a ponto de se tornar inteiramente impróprio à investigação histórica (Vermes, Geza. A religião de Jesus, o judeu. Rio de Janeiro, Imago Editora Ltda., 1995, p. 12).

Enfim, dependendo do grau de fé do crente, tanto pode ser aceita a versão pura e simples da ressurreição de Lázaro, conforme está contida em João 11, 43, como esta alusiva ao chamado Evangelho Secreto de Marcos, de onde se pode concluir que, tendo Jesus chegado próximo à tumba do amigo Lázaro, este já gritara antes, porque não estava morto, e sim aguardando a realização da cerimônia iniciática descrita anteriormente, tendo o Mestre apenas ordenado que fosse rolada a pedra que fechava tal sepulcro, entrado e estendido a mão para levantar seu jovem amigo rico, visto que o espaço interno deveria ser grande o suficiente para que umas duas pessoas se movimentassem normalmente, quando da preparação dos sepultamentos respectivos, até porque tais tumbas eram utilizadas várias vezes, geralmente por integrantes de uma mesma família e/ou grupo social, ao longo de muitos anos.

Na verdade, o indício mais marcante de que a “ressurreição de Lázaro” foi uma cerimônia de iniciação para “O Caminho” se encontra no versículo 16, mais precisamente quando o apóstolo Tomé, chamado Dídimo, disse aos outros discípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele, numa circunstância que certamente não aludia para um suicídio coletivo dos doze, mas, sim, para uma entrada simbólica no círculo dos ensinamentos hierofânticos do Senhor, conforme expressões usadas pelo bispo Clemente de Alexandria, na carta endereçada a Theodoro.

Logo, sob qualquer ângulo que se analise este “milagre”, as dúvidas e a incredulidade emergem facilmente, diante da existência do texto gnóstico secreto referido anteriormente. Além disso, modernos pesquisadores da lei judaica já perceberam que a linguagem empregada pelos redatores do Novo Testamento, em determinadas circunstâncias, se encontra associada a um simbolismo que somente os iniciados ou pessoas com as mesmas afinidades sócio-culturais eram capazes de entender a mensagem respectiva, inclusive porque geralmente eram usadas expressões do tipo quem tem ouvidos para ouvir, ouça! (Lucas 8, 8). Enfim, seguindo esta linha de raciocínio, constata-se que aquelas pistas (pesharim, no hebraico) podem ser encontradas na perícope relacionada com a “ressurreição de Lázaro”, cuja explicação coerente é apresentada a seguir: Segundo a Lei, a excomunhão (a ser considerada execução espiritual ou morte por decreto) levava quatro dias para a implementação completa. Nesse meio tempo, o excomungado vestia uma mortalha, era isolado e considerado “doente de morrer”. Devido à sua posição patriarcal até então, Simão foi encarcerado na câmara funerária patrimonial em Qumrã conhecida como o Seio de Abraão. Suas irmãs de devoção, Marta e Maria, sabiam que a sua alma estaria condenada para sempre se ele não fosse libertado (ressuscitado) ao terceiro dia; por isso, foram chamar Jesus, dizendo que Simão estava “doente” (João ll:3) (Gardner, Laurence. Obra citada, pp. 72-73).

Seguindo esta tese de que existiu uma parte secreta ou censurada do primeiro Evangelho Cristão escrito, alguns pesquisadores indicam que resquícios dela podem ser encontradas na seguinte passagem bíblica: Então, abandonando-o, fugiram todos. Um jovem o seguia, e sua roupa era só um lençol enrolado no corpo. E foram agarrá-lo. Ele, porém, deixando o lençol, fugiu nu (Marcos 14,50-52).

Esta questão tão controvertida acerca da existência de um manuscrito que comprova a existência de uma passagem do Evangelho de Marcos, que foi censurada pelos chamados “pais da igreja”, reúne todas as condições de ser verdadeira, pois até mesmo renomadas autoridades cristãs já admitem e aceitam o trecho secreto como autêntico, de cujos representantes se pode destacar o padre e professor universitário John P. Meier, que afirma o seguinte: O texto do Evangelho Secreto está incluído num documento que passa por uma carta de Clemente de Alexandria (150 – 215 aprox). A autenticidade da carta foi contestada, porém hoje é aceita por muitos especialistas (Meier, John P. Um Judeu Marginal – Livro I, Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro, 1993, p. 124).

Ora, se parte do clero cristão já admite a autenticidade do texto secreto de Marcos, este posicionamento talvez tenha origem nas teses defendidas por diversos pesquisadores que sempre encontraram lacunas ou falta de confiabilidade em tais episódios fantásticos. Nesse sentido, é conveniente mencionar que o escritor Ernest Renan cogitou da ausência de historicidade na chamada ressurreição de Lázaro, constante na obra publicada em 1878, para o qual o amigo de Jesus sofrera apenas uma síncope ou ataque de catalepsia. Enfim, mesmo não sabendo da existência do referido texto censurado de Marcos, Renan teve a intuição de que tal ressurreição não era digna de credibilidade histórica, mas visava apenas mostrar a face sobrenatural ou divina do mestre Jesus.

Antes de concluir o enfoque pretendido ao presente artigo, não posso furtar-me à narrativa de um fato do meu próprio conhecimento, quando eu ainda me encontrava na adolescência e gostava de participar dos jogos de futebol no campinho localizado na praça existente na frente da casa dos meus pais, em Barra do Corda – MA, por volta de 1976. No meio daquela garotada brincante havia um conhecido um pouco mais velho, morador de um bairro mais distante, que aprendeu alguns truques de mágica, em livretos comprados pelo chamado reembolso postal daquela época. Numa determinada tarde, ele chegou e nos contou que passou pela casa de uma senhora pobre que sofria de torturantes dores de cabeça, para a qual os remédios ingeridos já não produziam efeito. Então ele disse que poderia curá-la, desde que ela acreditasse nas suas palavras, ocasião em que recebeu a resposta afirmativa da senhora enferma.

Depois de receber essa concordância expressa, o nosso amigo pediu que ela lhe entregasse uma garrafa de vidro com uns dois terços de água no seu interior. Ele fez uns gestos meio caricatos, disse umas frases incompreensíveis e desconexas, girou várias vezes a garrafa d’água ao redor da cabeça da mulher e … zapt! Mostrou a ela a causa da sua doença: Dentro da garrafa estava um pequeno peixe (piaba), de uns três ou quatro centímetros, que ele disse ser a causa da sua doença.

Talvez seja desnecessário dizer que a cura foi imediata e a gratidão da senhora foi eterna, mas o que ele contou apenas para poucos amigos foi isto: dentro da garrafa ele colocou, rápida e discretamente (como apenas os mágicos sabem fazer), um pequeno pedaço de palha seca, retirado de uma folha de babaçu que cobria a humilde moradia da mulher doente.

Enfim, para a senhora “curada” ocorreu um milagre de cura, mas para quem sabia dos reais acontecimentos, tudo não passou de uma pequena e inócua magia.

CONCLUSÃO
Ao longo desse artigo apresentamos fatos, ações, personagens e relatos atinentes aos milagres e à magias, num entrelaçamento nitidamente forçado, tendo em vista que ambos se repudiam mutuamente.

Enfim, procuramos demonstrar que cabe a cada um de nós, na condição de pessoas inteligentes e sensatas, alegadamente “feitas à imagem e semelhança de Deus”, saber distinguir as magias dos milagres, e vice-versa, descobrindo os eventuais pontos de identidade existentes entre cada um deles e procurando não esquecer que até mesmo Lázaro, se efetivamente foi ressuscitado, terminou “morrendo novamente”. Portanto, como diria o swami indiano Yogananda, citado por Suzel Tunes, “a prática de milagres é espetacular, mas espiritualmente inútil” (Revista das Religiões, Viajante dos Mundos Espirituais, SP, julho/2004, p. 20), tendo em vista que os resultados das magias e dos milagres são efêmeros ou passageiros.

prof-2Estácio Trajano Borges

* O autor é engenheiro agrônomo, advogado e teólogo; ocupa um cargo de analista judiciário no TRT da 14ª Região, desde 1991, e é integrante da Academia Maçônica de Letras de Rondônia.