Há 30 anos o coronel Jorge Teixeira de Oliveira, fundador do Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, um apaixonado pela Amazônia, muito mais ligado à região do que muitos amazônidas de nascimento, “embarcou” no “trem da meia-noite”.

Conheci o Teixeira naquela época, e quando era prefeito de Manaus eu saí da cidade. Fui absorvido pela então bem calma e simples Porto Velho. Um dia, eu já morava aqui há mais de quatro anos, fui informado que o Teixeirão estava vindo para ser o governador, substituindo o também coronel da reserva do Exército Humberto da Silva Guedes.

No dia em que Teixeira chegou coube a mim apresentar um ao outro – e há uma foto que já rodou o mundo em que estou entre os dois, debaixo da asa de um boeing da Cruzeiro do Sul, ao lado direito do Teixeira está o jornalista Josias de Macedo, atrás do Guedes estão o jornalista Edinho e o administrador do aeroporto Clóvis Rhor.

Há muitos que afirmam que eu cheguei aqui para trabalhar com o Teixeira. Ledo engano. Quatro anos antes eu já havia “bebido” a água do Madeira. Eu trabalhava com os jornais Estado de São Paulo, depois com A Tribuna e, em 1979, já estava também no Alto Madeira.
Sobre a diferença de estilo entre os dois últimos governadores do Território eu tenho uma opinião: Humberto Guedes pensava longe (ainda em 1975 ele disse a mim que Rondônia precisava passar a Estado e que o então Território há muito já havia ultrapassado todos limites daquela situação). Mas Guedes não era midiático, apesar do muito que fez, e que Teixeira deu sequência, com o adendo de Teixeirão ser midiático.

E mal desembarcou do avião, ainda na pista do aeroporto, na condição ainda de governador indicado – ele tomaria posse mais de um mês depois, Teixeira definiu o seu “norte”, ao dizer que viera “Com a missão de transformar Rondônia em Estado.

Teixeira pode visitar todas as vilas, cidades, enfim viu o que queria ver e conheceu a estrutura que Guedes já havia “plantado”. Pode voltar para onde veio, antes de assumir, com um diagnóstico avantajado da situação e do que iria encontrar.

Nunca fui aquilo que se chama de “amigo” de Teixeira, como nunca consegui ser isso de outros governadores, mas sempre mantive com ele, apesar dos “aspones”, um relacionamento de respeito profissional, eu como repórter e ele como governador.

Também, como dos outros, nunca pedi favor, apesar de, tenho certeza, se pedisse conseguiria. Entendo que, com base em depoimentos que já ouvi de parte de assessores que trabalharam direto com os dois últimos governadores do Território o mais importante para Rondônia foi Humberto Guedes, mas respeito quem pensa o contrário. Só não concordo com o que pretendem alguns, passando às pessoas de que, por aqui, tudo foi o Teixeira quem fez.

Creio que faltou a Teixeira, como também a Guedes e, tenho certeza, a todos governadores do Território pós 1964, visão política do cargo que exerciam. Ele poderia ter sido o primeiro governador eleito do Estado. É preciso notar que àquela altura o Congresso Nacional era praticamente uma representação que fazia o que o Planalto queria – mais um menos do que acontece atualmente.

Em meu entendimento bastaria ele ter “encostado” no presidente João Figueiredo e proposto que a Lei que criou o Estado trouxesse em seu bojo o direito do governador do Território disputar a eleição de 1982 para ser o primeiro governador da nova Unidade da Federação. Nem o Jerônimo Santana teria ganho, como fez em 1986.

Não posso tirar os muitos méritos do Teixeira, mas há um desafio que temos de cumprir para o bem da História de Rondônia: realizar um debate com o tema “Teixeira, o homem e o mito”, dentro da seguintes perspectiva: “Até quando era o homem ou até quando era o mito’.

Ao morrer, como muitos dos que, oficiais do Exército, governaram Rondônia, Teixeira era um homem pobre. E, por ordem de seu substituto, o governador Angelo Angelin, mereceu um sepultamento mais digno.

ALGUMAS HISTÓRIAS MINHAS COM O TEIXEIRA
(histórias que fazem parte do meu próximo livro, “A Cesta página de um Repórter”).

DO TEIXEIRA

Cada qual no seu cada qual


Conheci o Teixeirão (de 1979 a 2005 governador de Rondônia) no final da década de 1960, em Manaus. Nunca fomos o que se pode chamar de amigos. Quando ele foi nomeado governador do então Território eu já morava aqui há quatro anos e nem me convidou nem, tampouco, pedi para trabalhar com ele.

Meu relacionamento com ele sempre foi profissional: era uma boa fonte de notícias mas, talvez porque nunca fui de pajear ninguém, nunca nos aproximamos, apesar de várias vezes nos termos encontrado em situações diversas, lá e aqui.

Numa das vezes, quando ele seguia como “governo itinerante”, pouco antes da instalação do Estado, aconteceu: Na prefeitura de Pimenta Bueno eu e outros repórteres estávamos “cobrindo” uma reunião dele com seus secretários e prefeitos da região.

Como sempre fiz, procurei ficar em ponto discreto para observar bem e ouvir melhor. E não fazendo, como muitos, folhas e mais folhas de anotações. Fazem já algumas décadas que procurou mentalizar, anotando apenas o que considero importante. Estou nisso quando o Teixeira grita de lá:
– Lúcio, vê lá o que vais escrever.

Dei o troco na hora: “Governador, eu nunca vou ensinar ao senhor seu ofício. Também não aceito que o senhor queira ensinar o meu”.

Dias depois um assessor próximo a ele diz-me que “O coronel está zangado contigo”. Respondi que eu ficaria zangado se a dona Fátima estivesse zangada comigo. Quanto ao Teixeira, na tarde daquele mesmo dia nos encontramos e ele lembrou do tempo em que era péssimo jogador de voleibol e reclamava que eu não deixava (na época eu era árbitro) que ele puxasse a rede para baixo para bloquear.

LÚCIO OPINA
Lúcio Albuquerque, repórter e membro da Academia de Letras de Rondônia