Um vídeo divulgado pela Rede Amazônica Acre mostra três crianças, com idades entre nove e 10 anos, fardados e fumando cigarro dentro da carcaça de um caminhão abandonado em um terreno baldio no bairro Montanhês, em Rio Branco. As imagens foram feitas por um cinegrafista amador na segunda quinzena de outubro e chamou a atenção da 2ª Vara da Infância e Juventude, que acompanha o caso.

No vídeo aparecem dois garotos conversando com outra criança enquanto passam o cigarro de mão em mão. As duas crianças que aparecem nas imagens estão usando fardas de um colégio público da região. No local, é possível encontrar palitos de fósforo. A direção do colégio não quis se posicionar.

A comerciante Dejane Araújo trabalha ao lado do terreno e diz que é comum ver jovens no lugar. “Todo santo dia tem crianças brincando aí nessas sucatas, só que a situação de crianças usando cigarro é a primeira vez”, diz.

Já um morador, que não quis se identificar, diz que nunca viu crianças fumando no local, mas que traficantes atuam na região. “Aqui tem umas quatro ou cinco ‘bocadas’ só nessa rua. É perigoso”, conta.

Mãe diz que não sabia
Também sem querer se identificar, a mãe de uma das crianças que aparecem no vídeo diz que só soube que o filho não estava indo para a escola após ver as imagens. “Ele vai para escola com o irmão dele. O irmão dele deixa ele na porta da escola e quando sai, pega o ônibus e vem para cá, passa o restante do dia aqui junto comigo. Nunca me comunicaram que ele não estava indo para a escola e que estava faltando aula”, afirma.

A mãe diz que no dia em que viu as imagens chegou a ir até a escola e não encontrou o filho na instituição e foi assim que descobriu que o menino estava com problemas nos estudos. “Conversando com o diretor e com a professora, soube que ele não tinha mais condição de passar de ano devido às faltas e dentro de sala ele não estudava. Simplesmente não queria estudar, não se interessava. Quando ia só bagunçava e eu não era comunicada do que estava acontecendo”, conta.

A mulher então resolveu tirar a criança da unidade. “É melhor ele perder esse resto de ano do que eu perder o meu filho pra marginalidade e para as drogas”, desabafa. Procurada a escola preferiu não se manifestar sobre o caso.

O psicólogo Álex Brandão explica que é preciso que a escola pense em maneiras de ocupar o tempo das crianças de maneira mais proveitosa. “Se trata de pensar em formas e atividades que ocupem esse tempo de forma útil. Seja com atividades esportivas, culturais ou com lazer. O que a gente pode oferecer em termo de ambiente para que possam utilizar o tempo de forma mais útil”, avalia.

Justiça vai acompanhar caso
O juiz Romário Divino, responsável pela Vara da Infância e da Juventude, explica como agir diante desse tipo de situação.

“Toda pessoa que ver uma criança nessa situação, de exposição e vulnerabilidade, tem um compromisso ético de se interessar e, no mínimo, comunicar à rede de proteção social. Eu quero me dirigir especificamente também à família: a família deve ter um controle melhor sobre as crianças. Saber onde andam, com quem andam e se estão frequentando a escola”, salienta.

Ele diz também que um processo será instaurado para acompanhar o caso de perto. “Já vamos instaurar um processo de medida protetiva pra verificar a situação dessas crianças e da família e envidar todos os esforços para uma inserção educacional e um melhor acompanhamento da situação de vulnerabilidade das crianças”, finaliza.

Colaborou Oscar Xavier, da Rede Amazônica Acre.